Missão cumprida

A ministra da justiça, Paula Teixeira da Cruz, lídima representante da sua classe política, tem, nos últimos dias, respirado de alívio.
No início do seu consulado na área da justiça deparava-se-lhe um problema de difícil resolução: como criar uma aparência de reforma territorial dos tribunais, sem dinheiro, sem espaços para os novos tribunais funcionarem, sem o apoio institucional dos advogados e com grandes reticências dos magistrados que, desgastados e encurralados pelos cortes salariais e pela exlusividade a que estão obrigados, não se mostravam receptivos a colaborar com o ministério. Para agravar o cenário, a pessoa que escolheu para secretário de estado da justiça, António Costa Moura, revelou, logo desde o início do mandato, uma ignorância inaudita para quem ocupa um cargo governamental desta natureza, especialmente na área processual e da organização judiciária.

O destino conspirou, no entanto, a favor de Paula.

A ordem dos advogados desapareceu como interlocutor social válido, não tendo a sua bastonária demonstrado ser possuidora de sentido estratégico, visão e carisma para mobilizar os advogados: presa a objectivos corporativistas e imediatistas nunca percebeu, por falta de cultura constitucional, que o problema ia muito para além dos quarenta ou cinquenta quilómetros que a testemunha era obrigada a percorrer para testemunhar em tribunal. Os advogados, no dia-a-dia, sujeitaram-se a condições de trabalho degradantes, tendo havido poucos, honra lhes seja feita!, que, de comum acordo, se recusaram a realizar diligências judiciais consignando por escrito porquê. Os que se sujeitaram, menorizaram-se e envergonharam a sua liberdade.

Os magistrados, aqueles que estão nos tribunais, no dia-a-dia, a despachar os processos, a ouvir as pessoas, a inquirir outras, a redigir sentenças e outras peças, sem réstea da dignidade exigida pela posição constitucional que ocupam, amordaçados por um sistema de inspecções arbitrário herdado do estado novo e, por isso, totalmente amorfos e com medo dos seus directores espirituais, sujeitaram-se a trabalhar com martelos pneumáticos a trepidar ao seu lado, em contentores com ratazanas a passearem em cima de processos, sujeitaram-se a ser instalados em caves, em sótãos e outros locais de difícil descrição, criando, com o seu inestimável contributo, aquela aparência de reforma tão desejada por Paula. “Aguenta”.
“Aguenta”, dizia o conselho superior da magistratura. “Aguenta”, dizia a associação sindical dos juízes portugueses. E o juiz aguentou, temeroso. “Aguenta” dizia o conselho superior do ministério público. “Aguenta”, dizia o sindicato dos magistrados do ministério público. E o procurador aguentou, temeroso.
Sem o dizerem, prometiam os conselhos e os sindicatos a chegada dos amanhãs que cantam com os novos estatutos, com a clarificação da função, com novos direitos e deveres e… com a clarificação e segurança remuneratória.

Paula foi sabendo de tudo. Dos fracos advogados. Dos temerosos magistrados. Da diligência que ia sendo feita, do despacho que chegava ao processo, da diligência realizada. Apesar de alguns problemas informáticos, a reforma ia andando e até Juncker dizia, na Europa, que em Portugal se faziam reformas profundas na justiça. Aproveitou o embalo e alterou o estatuto da ordem dos advogados, permitindo que não-advogados fizessem parte de sociedades de advogados, perante a incapacidade da ordem para, em nome da independência do exercício da profissão, se impor.

O problema mais bicudo entretanto chegou, como Paula sabia que chegaria.
A sua reforma do mapa territorial da justiça, muito mais no papel do que no terreno, só ficaria completa com a aprovação dos estatutos das magistraturas. Os conselhos das magistraturas e os sindicatos, sabendo que a reforma só ficaria completa com essa aprovação, foram ordenando “aguenta”, foram ameaçando, tendo até o presidente e o vice-presidente do conselho superior da magistratura, em visitas às comarcas, dito directamente aos juízes que a reforma era para avançar e que não seria por causa dos juízes que a reforma não avançaria.

Mas Maria Luís disse que não. Como boa contabilista, concentrada numa específica tarefa, não quer saber de titulares de órgãos de soberania, de exclusividades, de independências e de reformas na justiça para nada. Paula não ia perder uma guerra no fim do mandato e entre a sua posição política no seio do governo e o completar da reforma não havia que hesitar. Lá vêm, vocês, magistrados, com as vossas reivindicações. Não é momento para reivindicar nada. As coisas até vão andando. As sentenças vão saindo, os magistrados e os advogados trabalham.
É certo que vão saindo menos, é certo que ninguém sabe para que servem os juízes-presidentes das comarcas, é certo que há cada vez menos magistrados que decidam absolutamente em liberdade, é certo que, principalmente no ministério público, sem o estatuto aprovado, há uma descoordenação de funções e meios, é certo que não há instalações suficientes para albergar a reforma. É certo que alguns vão ficar muito zangados com Paula. E se calhar, deixando-a aliviada sem querer, até vão deixar de lhe falar.

Mas isso agora não interessa nada. Eu, Paula, fiz a reforma do século na justiça!

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Vida

A questão pode colocar-se de várias formas.
Temos pensado em equacioná-la de uma forma um tanto ou quanto diferente daquelas com as quais somos normalmente confrontados nas lições universitárias portuguesas de direito penal.

Se a pena de morte, nos casos de homicídio doloso, parece constituir uma negação da própria vida e, portanto, eticamente ilegítima, por negar o que se tenta penalmente tutelar e dissuadir de violar, uma pena com pouca expressão, nos mesmos casos de homicídio doloso, tornar-se-á, atento o valor em causa, eticamente insuportável e, por causa disso, insuficiente para reafirmar contrafacticamente as expectativas da comunidade na validade da norma violada. Teremos, ali e aqui, de igual modo (mas com diferentes intensidades), um desrespeito relativamente à vida humana.

O quantum da pena deverá reflectir um equilíbrio entre o valor do bem jurídico e a sanção que o pretende tutelar e, como lapidarmente se extrai do princípio, terá de depender, num apelo ao concreto momento histórico, das razoáveis expectativas da comunidade.

A estaticidade da regra legal, se bem que não fundamentadora de uma constante intervenção legislativa nos códigos nucleares, não deixa de solicitar ao legislador uma especial atenção ao evoluir da sensibilidade da comunidade e às suas expectativas quanto à forma como o estado protege os valores fundamentais do ordenamento jurídico.

Afastada que está a possibilidade de se reintroduzir a pena de morte, sinal de um inquestionável avanço civilizacional, não deixaremos de perguntar, viajando para o pólo oposto do problema e no sublinhar do equilíbrio aparentemente perdido, se a protecção da vida humana, dever inquestionável do estado, não implicará, igualmente, a necessidade de se prever um adequado número de anos de prisão nos casos de homicidas que assim se tornam dolosamente, ou seja, aqueles que mataram querendo, efectivamente, matar. Sobretudo quando as expectativas da comunidade quanto à eficácia da sanção prevista não são suficientemente densas para a reafirmação da validade da norma violada. Seria hipocrisia, a nosso ver, invocar, para afastar a possibilidade de punir com a morte os homicídios dolosos, o dever de protecção do mais alto valor do ordenamento jurídico quando, do mesmo passo, se tutelaria o mesmo valor com sanções de baixa expressão e de baixa ressonância social.

O que nos leva à interrogação crítica.
O limite máximo de 25 anos para as penas aplicáveis a homicidas dolosos é, em face das actuais expectativas comunitárias, compatível com uma protecção equilibrada e adequada da vida humana?
Ou a sociedade portuguesa evoluiu, reclamando, agora, um outro ponto de equilíbrio?

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Vanitas vanitatum et omnia vanitas (ainda os juízes políticos)

Alguns juízes parecem ter pouco interesse numa magistratura judicial que transmita uma imagem de distanciamento, imparcialidade e independência. Digo alguns porque não creio que todos os juízes aceitassem fazer fretes ao poder político. Mas se nem todos o aceitariam, a maioria parece que não vê grande inconveniente na possibilidade de um juiz poder assumir cargos políticos na dependência hierárquica de outros titulares de outros poderes do estado. Nunca se viu a associação dos juízes ou um qualquer outro juiz insurgir-se veementemente contra esta possibilidade. E o conselho superior da magistratura, apesar de ser composto maioritariamente por não juízes, tem autorizado, com votos concordantes dos membros juízes, comissões de serviço fora dos tribunais. Apesar de ser quase sempre devastador para a sua imagem, os juízes têm tolerado as suas próprias nomeações políticas.

Os episódios de empastelamento da separação dos poderes do estado vão-se sucedendo nos últimos tempos a um ritmo vertiginoso, como já por aqui foi assinalado.

Alguns vão dizendo que a honestidade da pessoa suplantará as contingências do cargo. Dito por alguém que não seja juiz, a afirmação encerrará, decerto, a boa fé de quem o diz. Dito por um juiz, ficará sempre no ar a dúvida sobre as suas pretensões políticas.

Não há nada melhor do que algo absolutamente demolidor para evidenciar o cerne da questão. E o cerne da questão nada tem a ver com a seriedade ou a honestidade do nomeado.

A distribuição a um juiz conselheiro do supremo tribunal de justiça do pedido de habeas corpus interposto pelo ex-primeiro-ministro preso que, em tempos não muito distantes e enquanto em funções, demitiu esse juiz de director da polícia judiciária por causa de divergências com a tutela (a ler aqui), é devastador para a imagem dos juízes. E vem demonstrar, à saciedade, que o relativismo ético-constitucional assumido pelos intérpretes do sistema apenas prejudica quem é nomeado.

A autoridade do juiz em causa sai danificada. A já de si estranha nomeação de um juiz para director de uma polícia, o vexame da demissão e o julgamento de quem o demitiu pelo demitido farão cair sobre este, na posição de julgador, o anátema da dúvida insanável sobre a liberdade interior do raciocínio decisório.

A decisão, qual seja ela, será atacada pelos piores motivos e razões. E os juízes, todos eles, mais uma vez, serão vistos como pouco independentes. Apesar de o serem (como se comprova pelo painel de avaliação da justiça na união europeia, a ler aqui), o bom povo, pouco dado a reflexões e ponderações mais informadas, não vai querer saber de relatórios cansativos, em face da facilidade da conclusão que o episódio confrangedor encerra em si.

As pessoas deviam saber quando é que devem sair de cena. E os juízes, tendo meios legais ao seu dispor para tal, deviam ser os primeiros a dar o exemplo, pelo seu próprio pé, colocando a vaidade pessoal atrás de princípios maiores.

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Um desastre

Precisamente na altura em que a relatora das nações unidas para a independência de juízes e advogados, Gabriela Knaul, se encontra no país para avaliar a independência do sistema judiciário português, a ministra da justiça demonstra a intenção de, através de uma alteração ao estatuto da ordem dos advogados, diminuir a independência destes na correlação de forças presente nos litígios não submetidos e submetidos a juízo e perturbar, por essa via, o grau de confiança que os cidadãos devem e esperam depositar nos advogados.

A proposta que foi remetida para a ordem dos advogados é surpreendente. Não tanto por continuar a permitir que os deputados à assembleia da república exerçam a advocacia, proibindo tal exercício aos vereadores municipais, numa distinção espúria que tem a marca do regime, mas por abrir as sociedades de advogados a outras profissões, num aparente gesto de modernidade, mas que de moderno apenas tem a duvidosa submissão dos sócios não-advogados às regras deontológicas, designadamente, ao sigilo profissional, e a permeabilidade da independência técnica do advogado aos ditames das consultoras internacionais, desejosas de praticarem actos próprios da profissão de advogado através de não-advogados.

Depois de ter andado, nos últimos dois anos, a enganar os juízes, prometendo o que não podia prometer ao nível da mais do que necessária protecção financeira destes relativamente aos outros poderes do estado, a precipitar-se na aprovação de uma reforma da organização judiciária sem meios no terreno para ser concretizada, mas com a alva intenção de acantonar os juízes numa hierarquia inconstitucional sob a égide dos juizes presidentes e do conselho superior da magistratura, a ministra da justiça pretende, agora, fechar o círculo que começou a desenhar no início do mandato, criando condições para diminuir, de facto, a independência dos advogados na defesa e representação dos cidadãos.

Os propósitos que foram sendo concretizados pouco têm a ver com a eficiência e eficácia de um sistema que, ou nunca compreendeu totalmente, ou nunca esteve interessada em mudar: o pretendido liga-se à aversão deste poder aos grupos sociais independentes e à intenção de criar mecanismos de controlo de ordem política ou económica.

Mais poder concentrado, menos constituição, menos independência, menos cidadania, menos justiça.
Tal é o balanço desta ministra no fim do seu mandato. Um desastre.

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