Beneficium juris nemini est denegandi

  1. Garotices e parvoíces;
  2. Tagarelices e burrices;
  3. Canalhices e cretinices;
  4. Casmurrices e outras brejeirices.

1. Garotices e parvoíces

Referindo-se publicamente a magistrados que, segundo o próprio e num grupo secreto do Facebook constituído exclusivamente por magistrados, teriam escrito comentários jocosos a propósito de um ex-primeiro ministro de Portugal que hoje se encontra em prisão preventiva, João Araújo, advogado desse cidadão, apodou os magistrados membros desse grupo como “garotada que invadiu os tribunais e que se entretém com estas parvoíces, em vez de estar a despachar processos.”
Chegamos, assim, às garotices e parvoíces.

Mas quem será garoto e parvo?
Magistrados com mais de duas décadas de carreira exemplar (os identificados na notícia do Expresso do passado dia 17 de Maio, apesar de tudo mal identificados visto que alguns não integram a magistratura que se refere na notícia), que se expressavam livremente num círculo de pessoas composto exclusivamente por magistrados, que não era acessível por nenhuma outra pessoa que não por magistrados? Que não tinham o processo em questão atribuído? Que nenhum comentário concreto acerca do processo fizeram? Que se limitaram a usar de “non sense” (diga-se, de passagem, com muita piada). Que acreditaram legitimamente que proferiam as expressões em questão num círculo de intimidade e privacidade? Magistrados que usaram do seu direito fundamental à liberdade de pensamento e opinião num círculo privado?
Garotos e parvos, por certo não serão.

Volvendo o enfoque de novo para o autor da qualificativa – o advogado João Araújo –, os seus actos falam por si.
Então não é que este senhor, que chama garotos e parvos a pessoas que não conhece, há poucos dias, sabendo que estava a ser filmado em plena via pública, disse a uma jornalista: “a senhora precisa de tomar mais banho. Cheira mal”, “desampare-me a loja”, “mete-me nojo”.

Parece-me que de garotices, parvoíces e regras de boa educação estamos conversados.

2. Tagarelices e burrices

Ainda sobre o mesmo tópico – magistrados e grupos secretos do Facebook -, Francisco Teixeira da Mota escreveu uma crónica na qual apelida os mesmos magistrados de tagarelas, dizendo que lhes faltou um mínimo de bom senso e de bom gosto, para não dizer de inteligência.
Aqui estão encontradas as tagarelices e burrices.

Apesar de tudo, lá vai dizendo o senhor comentador (profissão actualmente com muito sucesso e em voga) que a questão deve ser tratada no âmbito da liberdade de expressão que deve ser praticamente absoluta, e que, estando no domínio da opinião e da opinião política, esta liberdade deve ser especialmente protegida.

Pois bem, caímos no paradoxo.
Então, se se admite que os magistrados têm o direito a exprimir livremente a sua opinião e em especial a sua opinião politica nos moldes em que o fizeram, porque razão são apodados de tagarelas? Tagarela é uma palavra que designa, depreciativamente, uma pessoa que fala muito. Se se diz que o visado tem o direito a falar, como se pode depois criticar e dar-lhe esse epíteto? Estes argumentos são válidos para todas as outras qualificativas negativas que o senhor comentador dirige aos magistrados visados: falta de bom senso e de bom gosto? Em comentários privados? Falta de inteligência? Por exprimirem os seus pensamentos?

Arrumadas ficam as tagarelices e burrices.

3. Canalhices e cretinices

Analisemos agora as canalhices, cretinices e pulhices.

Quem assumiu um comportamento verdadeiramente ignóbil em toda esta situação?
Quem traiu os seus pares?
Quem vendeu os seus colegas magistrados?
Quem lucrou com a desgraça alheia?
Quem ri enquanto os outros são enxovalhados na praça pública?
Quem se diverte enquanto os denunciados são alvo de processos de averiguação em sede disciplinar?
Quem cometeu crimes – ilícitos típicos penais – ao revelar a terceiros, sem autorização dos próprios, os comentários de seus colegas magistrados?
Quem integrou o grupo secreto de magistrados (se é que ele existe), revelou a sua existência, denunciou os seus membros e passou a terceiros os comentários nele proferidos (se é que alguma vez existiram esses comentários e, se assim for, se foram de facto proferidos, pois que, mais uma vez se dirá, nenhuma prova disso foi revelada)?

Pois bem, de bufos, delatores, canalhas, cretinos e pulhas, também estamos conversados.

4. Casmurrices

O conselho superior da magistratura e o conselho superior do ministério público determinaram a abertura de processos de averiguações com vista a aferir da eventual prática de ilícitos disciplinares por banda dos magistrados que alegadamente proferiram as expressões mencionadas pela revista VIP, Expresso e o advogado João Araújo.

Como podem os órgãos de gestão e disciplina da magistratura judicial e magistratura do ministério público, iniciar um processo de averiguações em sede disciplinar a magistrados com início em factos e meios de prova criminosos, porque ilícitos?
Como podem estes órgãos máximos de disciplina e gestão da justiça, fazer tábua rasa da Declaração Universal dos Direitos do Homem, da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, do Tratado da União Europeia, da jurisprudência firme e firmada do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, do Tribunal de Justiça da União Europeia, das Recomendações do Conselho da Europa, da Constituição da República e da legislação ordinária portuguesa?

O direito fundamental à liberdade de opinião e expressão está expressamente reconhecido em todas as citadas convenções, tratados, constituição e lei ordinária.
O Tribunal de Justiça da União Europeia tem vindo a sublinhar reiterada e sistematicamente a importância da liberdade de expressão nas sociedades democráticas, devendo interpretar-se os conceitos relativos a essa liberdade de modo amplo.
E, Portugal, tem vindo a ser sucessivamente condenado no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem por ofensa ao direito fundamental de liberdade de expressão, pelos vistos não aprendendo as lições que lhe tem vindo a ensinar este Tribunal, teimando em violar este direito fundamental dos seus cidadãos. No direito penal este comportamento tem uma qualificativa: reincidência. Tratando-se de um estado e de direito internacional público, este comportamento só pode ser qualificado, na melhor das hipóteses, como casmurrice.

Para além de todas estas normas de direito internacional público, também o direito comunitário demanda especial respeito e atenção pelo direito à liberdade de expressão dos cidadãos.
No que concerne a publicações de cidadãos nas redes sociais, existe até uma recomendação do Conselho da Europa que proíbe todos os empregadores – públicos e privados, estados e particulares – de solicitar ou até indagar junto dos trabalhadores acerca de informações que essas pessoas partilhem com outra(s) on-line, principalmente através de redes sociais.

Pena é que um estado que se esforça tanto por merecer reconhecimento internacional como “aluno bem comportado”, adopte este comportamento perante os seus cidadãos nacionais.
Um estado de direito deve respeitar e fazer respeitar as leis, todas as leis.
De que vale ter uma legislação progressista, sobretudo em sede de direitos humanos, para depois a ignorar e violar sistematicamente?

Aos magistrados, só pelo facto de o serem, não pode ser negado o benefício da tutela do direito assegurado a todos os demais cidadãos – beneficium juris nemini est denegandi.
Não só por ser ilegal, não só por serem eles que vão julgar os outros cidadãos, mas também porque uma sociedade pluralista e livre nunca suportará ter os garantes do pluralismo e da liberdade arregimentados em coletes de forças próprios de um tempo distante nas datas mas próximo nas cabecinhas de uns tantos.

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