O velho, o rapaz e o velho

Era uma vez um rapaz que achava que os contos de crianças não existiam.
Era um rapaz de estudos e desde a mais tenra idade frequentava comícios e outros agrupamentos de jovens com capacidades e vontades semelhantes.
Tinha ambição de participar na governança do seu país. Era, pois, um rapaz empreendedor e voluntarioso.
Nesse país, para cada rapaz havia dois velhos. Dois velhos que o trabalho de cada rapaz tinha que ajudar a sustentar assim como eles, enquanto rapazes, haviam trabalhado e contribuído para o sustento de outros velhos.

Esta era a lei.

Havia, nesse país, quem achasse que não era correcto que cada jovem carregasse com o peso de dois velhos. Quando muito, poderia carregar o peso de um e o outro podia, por exemplo, ficar a porfiar num corredor de hospital, até que, decentemente, como qualquer velho deve fazer, poupasse aos outros o espectáculo da sua senectude.
Havia, também, quem achasse que não era correcto que um jovem carregasse o peso de um único velho que fosse, pois os velhos, como todos sabem, não são o futuro. O futuro está na juventude. É certo que no futuro de toda a juventude está a velhice mas há certos pormenores, em todas as histórias, mas sobretudo nos contos infantis, que devem ser omitidos sob pena de perderem a dimensão onírica e ficarem demasiado saturados de realidade.
Finalmente, havia quem achasse que o correcto seria que cada jovem fosse carregado por dois velhos pois, além da manifesta superioridade numérica sempre havia o argumento de suprema justiça (e óbvio), de que não é correcto que quem trabalha ande, ainda, a sustentar o peso de quem nada faz.

Disse finalmente?

Enganei-me. Neste conto, o compasso é quaternário.
Havia, ainda, um quarto modo. O do nosso rapaz. Era um rapaz esquecido.
Trabalhava mas esquecia-se de que o fazia.
Ganhava dinheiro mas esquecia-se que o dinheiro ganho com o seu trabalho tinha de ser partilhado com os velhos do seu país.
Participava activamente na governança do seu país e queria participar mais ainda, mas esquecia-se da lei.
Era, sem qualquer culpa sua, um tanto ou quanto arrapazado.
Por onde passava, uns diziam-lhe: não sustentes os dois velhos, ninguém pode com tanto, leva só um às costas.
Outros diziam-lhe: não leves nem um, nenhum velho deve ser carregado senão para a sua última morada (é sabido que os velhos não devem andar ao frio ou ao sol, tudo lhes provoca achaques e isso aumenta a conta da farmácia).

Finalmente (agora sim) outros diziam: arranja dois velhos que te carreguem, tu és o futuro, são eles que devem levar-te para onde queiras ir.
Os velhos também ouviram os mesmos ditos.
Decidiram-se por levar o rapaz, em ombros, aonde ele quis.
Havia velhos que também tinham ido aos mesmos comícios do rapaz que lhe diziam: “sabes uma coisa, meu rapaz, o melhor é não darmos ouvidos ao que dizem os outros, pois há-de haver sempre alguém a criticar-nos”.

É sabido que os rapazes, sobretudo os mais arrapazados, têm limitada capacidade para considerar e aprender tudo o que ouvem.
Daí que o nosso herói tenha esquecido o assunto dos velhos.
Era muita gente a falar do mesmo e cada um a dizer sua coisa.
Ouvira, num dos seus comícios juvenis, onde fora aluno atento dos mais variados temas de ciência política, uma enunciação sobre a “Espiral do Silêncio”. Achou que se aplicava ao assunto.
Lembrou-se, para mais, de um conto que tinha ouvido antes de perceber que os contos infantis não existiam. Acabava assim:

“Para a todos agradar,
Foi fazendo o que ouvia.
E só no fim percebeu,
Que a sua razão é que valia.”

Decidiu, então, que não se falava mais na questão, deixou de responder às interpelações e decretou que o tema estava encerrado.

FIM

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